Sessão pública discute futuro do fundeio de navios e preocupa empresários locais; soluções técnicas para manter operação são caras e exigem reavaliação ambiental
A Praça Santos Dumont, no Centro de Búzios, será palco nesta quarta-feira (30) de uma audiência pública decisiva para o futuro econômico da cidade. Convocada por ordem judicial, a sessão tem como foco o licenciamento ambiental do fundeio de navios de cruzeiro, atividade que impulsiona diretamente o turismo e o comércio local.
Determinada pela juíza federal Monica Lúcia do Nascimento Alcântara Botelho, a audiência ocorre no âmbito de uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF). O órgão questiona a validade do licenciamento atual para ancoragem dos navios, exigindo novos estudos e medidas técnicas mais robustas.
O debate tem mobilizado empresários, comerciantes e trabalhadores de Búzios, especialmente das regiões mais impactadas pela atividade turística, como Centro e Ossos. Preocupados com uma possível interrupção das escalas, lojistas organizam um protesto batizado de “fechadão do comércio”, durante o qual estabelecimentos suspenderão as atividades por duas horas como forma de alerta à população e ao poder público. A ação já conta com mais de 40 adesões confirmadas, segundo a Associação do Centro Turístico de Búzios (ACTB).
Impacto direto no comércio e no emprego
O receio não é infundado. Em 2023, uma suspensão temporária na operação de cruzeiros por dois meses trouxe prejuízos significativos aos comerciantes locais. O empresário Rogério Guedom, proprietário da Casa Praia D’ecor, relatou uma queda de até 80% nas vendas durante o período. “O público cruzeirista é vital para nós”, afirmou.
Segundo a Prefeitura de Búzios, a temporada 2024/2025 registrou cerca de 100 escalas, recebendo aproximadamente meio milhão de visitantes. O impacto econômico é estimado em R$ 13 milhões, com gastos médios de R$ 750 por turista. A presença dos cruzeiros movimenta uma cadeia ampla de serviços, incluindo restaurantes, quiosques, transporte turístico, comércio e ambulantes.
Soluções técnicas exigem alto investimento
Entre os temas em debate na audiência está a exigência de novas estruturas de fundeio, como as boias do tipo “Dolphin”. No entanto, os estudos usados para justificar a medida datam de 2010 e estão defasados. Atualmente, os navios que chegam à cidade ultrapassam 180 mil toneladas, enquanto as boias propostas teriam capacidade para apenas 6 mil.
Luciano Oliveira, especialista em logística marítima com quatro décadas de experiência, alerta que adaptar Búzios à nova realidade náutica exigiria obras de grande porte, com fundações profundas, correntes resistentes e estruturas fixas no leito marinho. O custo inicial é estimado em dezenas de milhões de reais, fora a manutenção contínua. “É um investimento incompatível com a operação sazonal que temos aqui”, afirma.
Além dos custos, há preocupações com o impacto ambiental. As obras interfeririam diretamente em áreas de preservação marinha, como o Parque dos Corais, exigindo licenciamento rigoroso e ações de mitigação.
Turismo sazonal e risco de colapso econômico
Para o secretário de Turismo, Thomas Weber, os cruzeiros representam uma oportunidade estratégica de desenvolvimento. “Cada passageiro que pisa aqui gera renda e mantém empregos”, destaca. O temor é que mudanças radicais no modelo de operação afastem os navios da cidade e provoquem um efeito cascata no setor produtivo local.
A paisagem urbana e a vocação turística de Búzios também são levadas em conta. Estruturas permanentes de fundeio podem afetar visualmente as praias e contrastar com a proposta de preservação ambiental e charme natural que atraem turistas do mundo todo.
Enquanto o debate técnico avança, comerciantes locais, como Edario Oliveira, que vende cocos na orla, se apegam à realidade cotidiana. “O movimento dos cruzeiros é certo. É nossa garantia. Sem eles, não tem como manter o ritmo.”





