Cabo Frio é abençoada por natureza. São praias cristalinas, ilhas paradisíacas e paisagens que vendem postais e encantam quem pisa pela primeira vez. Mas quem vai limpar essa beleza toda depois? A resposta parece sempre recair sobre os servidores públicos da limpeza urbana, que, como verdadeiros heróis invisíveis, recolhem toneladas de lixo deixadas por turistas descompromissados — como vimos mais uma vez neste último feriadão de Páscoa, quando a Ilha do Japonês amanheceu tomada por garrafas, embalagens e tudo que se possa imaginar de lixo urbano jogado ao léu.
O tal “turismo tribal” — aquele dos grandes ônibus fretados, das excursões desordenadas e do oba-oba sem limite — chegou em Cabo Frio com força, mas sem consciência, após a justiça revogar o decreto do aumento dos R$ 50 por pessoa, voltando a ser R$ 7, um valor inferior ao do Piscinão de Ramos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Conhecer é um direito, mas preservar é dever. E dever não se joga na areia com latinha e sacola plástica.
O que vimos este feriadão da Semana Santa foi um retrato triste de uma cidade que recebe de braços abertos, mas que sai ferida quando os visitantes vão embora. E não, não é elitismo. Não se trata de selecionar quem entra ou sai. Trata-se de ordenar. Porque se a gente não organizar o fluxo, a beleza vira caos, a praia vira lixão e o turismo, que deveria ser sustentável, se transforma em uma bomba-relógio ambiental.
E é aqui que entra a parte que revolta: tem político que ainda tem coragem de dizer que a taxa de R$ 50 por pessoa dos ônibus de turismo é “ruim pra cidade”. Ruim pra quem, exatamente? Porque pro meio ambiente é péssimo não cobrar nada. Pro servidor que limpa a ilha às seis da manhã de segunda-feira também não é bom. Ruim é ver as belezas naturais de Cabo Frio sendo destruídas em cada feriado.
R$ 50 por pessoa é muito? Talvez, pra quem quer tratar um paraíso como se fosse um estacionamento de uma boate após uma longa noite de esbórnia. Mas para quem ama Cabo Frio e entende que essa taxa pode ser revertida em infraestrutura, limpeza, educação ambiental e preservação, é um investimento mínimo.
Cabo Frio não pode mais se contentar em ser apenas visitada. Precisa ser respeitada. E pra isso, é urgente repensar o turismo que queremos. Um turismo de qualidade, que deixe lembrança, não destruição. Porque a beleza é de todos, mas a responsabilidade também deveria ser.





